É possível definir o que é bom e mau gosto musical?

Odair José no palco do festival Rec-Beat 2011. Foto: Caroline Bittencourt
por AD Luna

Juliano tem certeza que heavy metal é a melhor música do mundo. Estilo que é execrado por Roberta, que afirma com todas as letras ser o indie rock o estilo mais “cool” (mais legal) do planeta. Apesar dessa divergência, os dois concordam que sertanejo universitário, funk carioca e pagode não prestam. Joana diz não entender como alguém consegue se divertir na balada sem que se toque esses estilos, os quais ela adora. Aficionado por jazz, Fernando pensa que todos os sons citados nem mereceriam ser chamados de música. Júlio ri de Juliano, Roberta, Joana e Fernando por, em sua opinião, curtirem apenas ruídos. Para ele, só a música erudita salva.
Os personagens são fictícios, mas as situações nem tanto. Não é incomum encontrarmos no cotidiano ou em redes sociais, pessoas fazendo declarações semelhantes. Tidos como artisticamente fracos para determinados críticos profissionais ou informais, artistas como Bruno & Marrone, MC Guimê, Anitta, Gusttavo Lima, Luan Santana dominam as paradas radiofônicas e conseguem milhões de acessos a seus vídeos no YouTube. Os populares e falecidos Nelson Ned e Reginaldo Rossi já foram tachados como “bregas”, mas no sentido pejorativo do termo.
Diante disso, como poderíamos definir o que é bom e o que mau gosto musicalmente falando? “Mau gosto é tudo que os outros gostam e eu não… É impossível bater esse martelo. De qualquer forma, a função do crítico não é separar o ruim do bom, mas o bom do ótimo!”, comenta André Forastieri, blogueiro do portal R7, ex-Folha de S. Paulo e revista Bizz.
Na visão do editor da revista e site pernambucano Outros Críticos, Carlos Gomes, em se tratando de artes em geral deve-se levar em conta o conjunto de subjetividades e contextos culturais que englobam as inúmeras manifestações artísticas. Ele lembra o caso de cantores como João Gilberto, Caetano Veloso e Tom Zé, que outrora foram rejeitados e hoje são considerados representantes do “bom gosto musical” por muitos. “É preciso dar um passo além das rotulações como ‘brega’, ‘funk’, ‘MPB’ ou ‘rock’ e perceber as particularidades de cada artista. Portanto, a meu ver, o gosto permanecerá indefinidamente indefinível”, defende Carlos.
“Para definir o que é bom gosto ou mau gosto entra em cena um valor subjetivo que depende da formação intelectual de cada um, o que inclui a música. Se a pessoa consome uma música com alto grau de informação em termos de letra e música, digamos a MPB dos anos 1970, ela terá um grau de exigência maior. Se for uma pessoa simples, exposta a um tipo de música de menor conteúdo, sua exigência será menor. Quando Odair José canta que ‘felicidade, não existe, o que existe na vida são momentos felizes’ ele está apresentando um conteúdo até filosófico”, opina Jamari França, jornalista, blogueiro, ex-repórter do Jornal do Brasil e do Globo Online e autor da biografia dos Paralamas do Sucesso, Vamo batê lata.
Alex Antunes, músico, curador de festivais independentes, jornalista com textos publicados na Rolling Stone, Bizz e Folha de S. Paulo, é categórico ao afirmar que “não há como falar em bom e mau gosto. Isso não existe há 100 anos, desde que o Russolo (Luigi Russolo, pintor e compositor italiano) buzinou o intonarumori (instrumento musical que simula ruídos) – o que dizer depois do punk rock”.
O jornalista e músico Régis Tadeu vai na mesma linha de raciocínio de Alex Antunes ao afirmar que não é possível definir com exatidão a linha divisória que separa o bom e o mau gosto. “O que muitas vezes acontece é aquilo que é considerado como de ‘mau gosto’ em uma determinada época passa a ser cultuado em outros tempos – vide o recente renascimento do interesse pelos discos que Odair José gravou na primeira metade dos anos 1970. No caso do Rossi e do Ned, o interesse por suas respectivas obras se deveu muito mais ao exotismo divertido (no caso do primeiro) e no histrionismo caricato do segundo”, opina.
Mais depoimentos
Complexo de superioridade
“Metaleiros e indie rockers têm profundo – e errôneo – senso de superioridade aos sons mais populares apenas para reafirmar os códigos de suas tribos. Ambos os universos apresentam artistas tão ridículos quanto aqueles que perambulam pelo pagode, axé, funk carioca, sertanejo etc”.
Régis Tadeu – jornalista e músico
 Embate entre classes sociais
“Eu acho que não só a comunicação, mas as próprias comunidades se formam sob uma de duas características: a inclusão ou a exclusão. E eu não tenho dúvidas de que é muito mais trabalhoso e desgastante ser inclusivo do que ser exclusivo. Uma das características mais marcantes das comunidades exclusivas é o sentimento de que somos ‘escolhidos’ e comungamos de um nível incomum de esclarecimento e benefício. ‘Bom gosto’ é o que esse grupo exclusivista entende como belo, baseado em um entendimento de cultura que, acredita-se, só esse grupo tem. É cruel definir ‘bom gosto’ no Brasil por sermos um país tão partido. O significado real é a contraposição entre a elite e a ralé, é a aculturação das diferenças de classe no Brasil”.
Ricardo Alexandre. Trabalhou e colaborou com a Bizz, Trip, Carta Capital e Folha de S. Paulo, entre outros veículos. É autor dos livros Dias de luta: o rock e o Brasil dos anos 80, Nem vem que não tem: a vida e o veneno de Wilson Sideral e Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar – 50 causos e memórias do rock brasileiro (1993-2008).
Construção de letras
“Há fórmulas para se fazer letras, seja usando jogos de rimas, como mim, enfim, assim e fim, seja palavras terminadas em ão ou apenas através de verbos, o que torna muito fácil fazer letras, é um jogo de cartas marcadas. Pega-se uma das inúmeras alternativas românticas e faz-se letras armadas em cima delas, sem qualquer inspiração verdadeira. Pode ser em cima de amor não correspondido, amor correspondido, abandono de amor, volta do amor, solidão etc. Enfim, situações que todo mundo atravessa de uma forma ou outra. Um grupo de amigos reunidos numa mesa de bar pode fazer 10 letras dessas em meia hora”.
Jamari França. Escreve sobre pop rock desde 1982. Cobriu rock Brasil para o Jornal do Brasil nos anos 1980, quando se dividia entre o Caderno B e a Editoria Internacional
Funk carioca: o punk dos pardos
“O funk é de origem nobre, hackeamento tecnológico da periferia: miami bass via electro novaiorquino via Kraftwerk via Stockhausen. Quando você vê umas dançarinas com música altamente abstrata, com um ritmo linear gerado eletronicamente e quase nada de melodia e harmonia (poperô) no Faustão, você está num pesadelo que o Kraftwerk teve em meados da década de 1970. O discurso do ‘gosto’ disfarça um forte componente de classe. Na verdade, o gosto das classes médias mais altas é muito mais piegas e desinteressante do que o da periferia: o funk é o punk dos pardos”.
Alex Antunes – músico e jornalista