quarta-feira, janeiro 14, 2015

O grande Hólon da cena musical de Pernambuco

O álbum “Original Olinda Style”, da Banda Eddie foi lançado em 2003. Foto: Reprodução – Facebook

É possível definir o que é bom e mau gosto musical?

Odair José no palco do festival Rec-Beat 2011. Foto: Caroline Bittencourt
por AD Luna

Juliano tem certeza que heavy metal é a melhor música do mundo. Estilo que é execrado por Roberta, que afirma com todas as letras ser o indie rock o estilo mais “cool” (mais legal) do planeta. Apesar dessa divergência, os dois concordam que sertanejo universitário, funk carioca e pagode não prestam. Joana diz não entender como alguém consegue se divertir na balada sem que se toque esses estilos, os quais ela adora. Aficionado por jazz, Fernando pensa que todos os sons citados nem mereceriam ser chamados de música. Júlio ri de Juliano, Roberta, Joana e Fernando por, em sua opinião, curtirem apenas ruídos. Para ele, só a música erudita salva.
Os personagens são fictícios, mas as situações nem tanto. Não é incomum encontrarmos no cotidiano ou em redes sociais, pessoas fazendo declarações semelhantes. Tidos como artisticamente fracos para determinados críticos profissionais ou informais, artistas como Bruno & Marrone, MC Guimê, Anitta, Gusttavo Lima, Luan Santana dominam as paradas radiofônicas e conseguem milhões de acessos a seus vídeos no YouTube. Os populares e falecidos Nelson Ned e Reginaldo Rossi já foram tachados como “bregas”, mas no sentido pejorativo do termo.
Diante disso, como poderíamos definir o que é bom e o que mau gosto musicalmente falando? “Mau gosto é tudo que os outros gostam e eu não… É impossível bater esse martelo. De qualquer forma, a função do crítico não é separar o ruim do bom, mas o bom do ótimo!”, comenta André Forastieri, blogueiro do portal R7, ex-Folha de S. Paulo e revista Bizz.
Na visão do editor da revista e site pernambucano Outros Críticos, Carlos Gomes, em se tratando de artes em geral deve-se levar em conta o conjunto de subjetividades e contextos culturais que englobam as inúmeras manifestações artísticas. Ele lembra o caso de cantores como João Gilberto, Caetano Veloso e Tom Zé, que outrora foram rejeitados e hoje são considerados representantes do “bom gosto musical” por muitos. “É preciso dar um passo além das rotulações como ‘brega’, ‘funk’, ‘MPB’ ou ‘rock’ e perceber as particularidades de cada artista. Portanto, a meu ver, o gosto permanecerá indefinidamente indefinível”, defende Carlos.
“Para definir o que é bom gosto ou mau gosto entra em cena um valor subjetivo que depende da formação intelectual de cada um, o que inclui a música. Se a pessoa consome uma música com alto grau de informação em termos de letra e música, digamos a MPB dos anos 1970, ela terá um grau de exigência maior. Se for uma pessoa simples, exposta a um tipo de música de menor conteúdo, sua exigência será menor. Quando Odair José canta que ‘felicidade, não existe, o que existe na vida são momentos felizes’ ele está apresentando um conteúdo até filosófico”, opina Jamari França, jornalista, blogueiro, ex-repórter do Jornal do Brasil e do Globo Online e autor da biografia dos Paralamas do Sucesso, Vamo batê lata.
Alex Antunes, músico, curador de festivais independentes, jornalista com textos publicados na Rolling Stone, Bizz e Folha de S. Paulo, é categórico ao afirmar que “não há como falar em bom e mau gosto. Isso não existe há 100 anos, desde que o Russolo (Luigi Russolo, pintor e compositor italiano) buzinou o intonarumori (instrumento musical que simula ruídos) – o que dizer depois do punk rock”.
O jornalista e músico Régis Tadeu vai na mesma linha de raciocínio de Alex Antunes ao afirmar que não é possível definir com exatidão a linha divisória que separa o bom e o mau gosto. “O que muitas vezes acontece é aquilo que é considerado como de ‘mau gosto’ em uma determinada época passa a ser cultuado em outros tempos – vide o recente renascimento do interesse pelos discos que Odair José gravou na primeira metade dos anos 1970. No caso do Rossi e do Ned, o interesse por suas respectivas obras se deveu muito mais ao exotismo divertido (no caso do primeiro) e no histrionismo caricato do segundo”, opina.
Mais depoimentos
Complexo de superioridade
“Metaleiros e indie rockers têm profundo – e errôneo – senso de superioridade aos sons mais populares apenas para reafirmar os códigos de suas tribos. Ambos os universos apresentam artistas tão ridículos quanto aqueles que perambulam pelo pagode, axé, funk carioca, sertanejo etc”.
Régis Tadeu – jornalista e músico
 Embate entre classes sociais
“Eu acho que não só a comunicação, mas as próprias comunidades se formam sob uma de duas características: a inclusão ou a exclusão. E eu não tenho dúvidas de que é muito mais trabalhoso e desgastante ser inclusivo do que ser exclusivo. Uma das características mais marcantes das comunidades exclusivas é o sentimento de que somos ‘escolhidos’ e comungamos de um nível incomum de esclarecimento e benefício. ‘Bom gosto’ é o que esse grupo exclusivista entende como belo, baseado em um entendimento de cultura que, acredita-se, só esse grupo tem. É cruel definir ‘bom gosto’ no Brasil por sermos um país tão partido. O significado real é a contraposição entre a elite e a ralé, é a aculturação das diferenças de classe no Brasil”.
Ricardo Alexandre. Trabalhou e colaborou com a Bizz, Trip, Carta Capital e Folha de S. Paulo, entre outros veículos. É autor dos livros Dias de luta: o rock e o Brasil dos anos 80, Nem vem que não tem: a vida e o veneno de Wilson Sideral e Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar – 50 causos e memórias do rock brasileiro (1993-2008).
Construção de letras
“Há fórmulas para se fazer letras, seja usando jogos de rimas, como mim, enfim, assim e fim, seja palavras terminadas em ão ou apenas através de verbos, o que torna muito fácil fazer letras, é um jogo de cartas marcadas. Pega-se uma das inúmeras alternativas românticas e faz-se letras armadas em cima delas, sem qualquer inspiração verdadeira. Pode ser em cima de amor não correspondido, amor correspondido, abandono de amor, volta do amor, solidão etc. Enfim, situações que todo mundo atravessa de uma forma ou outra. Um grupo de amigos reunidos numa mesa de bar pode fazer 10 letras dessas em meia hora”.
Jamari França. Escreve sobre pop rock desde 1982. Cobriu rock Brasil para o Jornal do Brasil nos anos 1980, quando se dividia entre o Caderno B e a Editoria Internacional
Funk carioca: o punk dos pardos
“O funk é de origem nobre, hackeamento tecnológico da periferia: miami bass via electro novaiorquino via Kraftwerk via Stockhausen. Quando você vê umas dançarinas com música altamente abstrata, com um ritmo linear gerado eletronicamente e quase nada de melodia e harmonia (poperô) no Faustão, você está num pesadelo que o Kraftwerk teve em meados da década de 1970. O discurso do ‘gosto’ disfarça um forte componente de classe. Na verdade, o gosto das classes médias mais altas é muito mais piegas e desinteressante do que o da periferia: o funk é o punk dos pardos”.
Alex Antunes – músico e jornalista

Livro analisa em detalhes processo criativo de David Bowie

David Bowie completou 50 anos de carreira em 2014. Foto: Andrew Kent/Divulgação

por AD Luna

David Robert Jones nasceu em 8 janeiro de 1947, na Inglaterra. Este ano, o "Camaleão do rock" completou cinco décadas de carreira. No livro David Bowie e os anos 70 – O homem que vendeu o mundo (editora Nossa Cultura, R$ 59,90), como o próprio título sugere, o jornalista inglês Peter Doggett apresenta detalhado panorama da obra e da formação social, psicológica e espiritual de um dos mais importantes artistas do século 20.

Volumosa, com 570 páginas, a obra se inicia pela Construção de David Bowie: 1947-1968, na qual Doggett descortina o contexto histórico da época citada, a relação com a família problemática e como esses e outros fatores afetaram o modo de pensar e agir do músico e ator. 
Em As canções de David Bowie: 1969-1980, o autor analisa cronologicamente e com riqueza de detalhes (líricos, estilísticos) cada uma das músicas de Bowie, compreendidas durante esse período. A primeira a ser dissecada é Space oddity (1969), que também foi o primeiro grande sucesso do camaleão. A canção foi transmitida pela primeira vez pela BBC justamente durante a cobertura jornalística da chegada do homem à Lua, em 20 de julho de 1969. 

Bowie, como informa o livro, demonstrou comportamento ambíguo em relação àquele grande feito da humanidade e à associação da música com o evento. "Eu quero que esse seja o primeiro hino da Lua", disse inicialmente, durante entrevista; para, logo em seguida, lançar: "Acho mesmo que seja um antídoto contra a febre espacial". Amparentemente, ele se mostrava cabreiro com o deslumbramento coletivo que a viagem pudesse causar. 




Space oddity relata as aventuras do Major Tom, dentro de uma nave. Curiosidade não mencionada no livro: Em maio de 2013, o astronauta Chris Hadfield gravou clipe com uma nova versão para a música, na Estação Espacial Internacional. O autor original aprovou a releitura. "Possivelmente a mais mordaz já criada", disse Bowie.

Bastante cativantes são os diversos ensaios em que Peter Doggett se debruça sobre fases da vida de Bowie e dos bastidores de gravações. Em Sedução do oculto, o jornalista escreve sobre o tempo em que o músico mantinha interesse quase obsessivo pelas ideias de Aleister Crowley (que também influenciou o Led Zeppelin e Raul Seixas, entre muitos outros), ufologia, fenômenos paranormais e afins.

A ficção científica e a filosofia também serviram como fonte de inspiração para composições de David Bowie. É o caso de The supermen, baseada no romance John Esquisito, de Olaf Stapleton, e no "super-homem" de Friedrich Nietzsche.
O astronauta Chris Hadfield gravou clipe com uma nova versão para Space oddity, na Estação Espacial Internacional
Ziggy Stardust
Peter Doggett estuda as peças que reunidas deram origem ao enigmático Ziggy Stardust - espécie de ser espacial e andrógino criado por Bowie, em 1971. Também não faltam relatos sobre os flertes do músico com pensamentos de esquerda e de direita (o homem parece se divertir com ideias contraditórias), a relação com Iggy Pop, Andy Warhol, Lou Reed, a bissexualidade, o envolvimento com a cabala e a cocaína.

David Bowie e os anos 70 – O homem que vendeu o mundo é, provavelmente, um dos livros mais completos sobre o processo de criação de um artista pop. Obra que pode ser apreciada por fãs, estudiosos e amantes da música em geral.

Publicado originalmente no Diario de Pernambuco

quinta-feira, janeiro 01, 2015

Livro "Pavões misteriosos" é deliciosa viagem pelo pop brasileiro dos anos 1970 e 1980

O cantor Sidney Magal, em foto do primeiro disco, lançado em 1978. Foto: Polygram/Reprodução


Por AD Luna

Fim dos anos 1960, início dos anos 1970. A ingenuidade e a simplicidade da Jovem Guarda deram lugar a trabalhos de artistas brasileiros marcados por misticismo, ousadias sonoras e comportamentais. Apesar do conservadorismo do público nacional e da repressão militar, músicos como Fagner, Jorge Ben, Raul Seixas, Caetano Veloso, Rita Lee & Tutti Frutti, Novos Baianos, Odair José, lançaram algumas de suas obras mais marcantes. Formado por figuras andróginas, o grupo Secos & Molhados conseguiu, com o disco de estreia, a proeza de vender mais do que Roberto Carlos, em 1974.

Esses e muitos outros episódios da música brasileira integram o livro Pavões misteriosos. 1974-1983: a explosão da música pop no Brasil (Três Estrelas, R$ 45), do jornalista e crítico André Barcinski. “Comecei o livro sem saber aonde chegaria. Tinha uma ideia inicial, que era tentar explicar por que quase todos os meus discos brasileiros prediletos haviam sido lançados na mesma época, a primeira metade da década de 1970. Foram muitos LPs bons lançados num espaço curto de tempo”, explica Barcinski.
Durante as pesquisas e entrevistas com 65 pessoas (entre músicos, produtores, integrantes de gravadoras, jornalistas), ele foi descobrindo outros assuntos pertinentes e interessantes. Construído com texto atraente e ágil, Pavões misteriosos é uma importante fonte para se entender como funciona (ou funcionou) a dinâmica da indústria musical, a rejeição da crítica musical a músicos populares da época, a ascensão das FMs e dos discos de novela.

Entre alguns dos temas mais curiosos e até cômicos, está a “fabricação” de artistas como Gretchen, Balão Mágico, Xuxa, a armação da indústria de covers e a instituição do jabá no país (ato de se pagar para que determinadas músicas e artistas toquem nas rádios e em programas de TV). “O universo pop sempre foi dos espertos. Seja o Roberto Livi, que ‘inventou’ o Sidney Magal, ao produtor que hoje usa auto-tune para melhorar a gravação de um cantor, esse mundo sempre foi do faz-de-conta e do oportunismo. E não vejo nada errado nisso”, expõe André Barcinski.

Na visão do autor, é inadequado analisar a cultura pop sob visões dualistas e “rasteiras” como bem x mal, mocinhos x bandidos, honestidade x picaretagem. “No fundo, todo mundo só queria sobreviver. É assim até hoje”, arremata.




DO LIVRO

Fãs de Guilherme Arantes // Em entrevista a Barcinski, o cantor e compositor fala sobre a emoção de ter sido elogiado por um grande nome da música internacional. “As suas canções têm harmonias bem-feitas. Várias vezes eu tive inveja de você como compositor”, disse Tom Jobim a Guilherme. Em encontro com Mano Brown, “ele me falou que era meu fã, que a mãe, as tias, as primas, todo mundo lá no Capão Redondo adorava as minhas músicas”, conta Arantes.



Sidney Magal // 
Foi do argentino Roberto Livi, da gravadora Philips/Polygram, a ideia de criar um clone brasileiro do cigano Sandro, artista bastante popular na terra dos hermanos. “Eu peguei o Magal, que já tinha esse jeito expressivo no palco, e o transformei em cigano”, rememora o produtor, em Pavões. Repertório, figurinos até o que deveria dizer em entrevistas - tudo foi articulado por Livi.

Infantil // A Turma do Balão Mágico foi um dos grandes fenômenos dos anos 1980, tendo vendido cerca de dez milhões de cópias até meados da década. “Foi um dos primeiros grupos pop brasileiros criados como um produto, a partir de pesquisas de mercado e de uma intensa participação do departamento de marketing da (gravadora) CBS”, explica Barcinski.



Glauber Rocha e Ro Ro // O cineasta brasileiro era louco para ter um caso com a cantora. “Ele queria me comer de todo jeito, queria ter filhos comigo. Era impressionante, só de ele olhar pra mim eu já me sentia grávida”, conta Angela no livro.

O rock de Ritchie //
 Lançado em 1983, o LP Voo de coração, do inglês radicado no Brasil, vendeu 1,2 milhão de cópias. “Desde Secos & Molhados, nenhum disco de estreia no Brasil fizera tanto sucesso (...). Na primeira vez que foi à CBS receber pagamento, Ritchie olhou para o cheque e não acreditou: ‘Não é possível, deve ter algum zero a mais aqui, não?’”.


ENTREVISTA ANDRÉ BARCINSKI


O jornalista e crítico musical André Barcinski. Foto: Nina Barcinski/Divulgação

Músicos que faziam sucesso entre o "povão", nos anos 1970, como Odair José, citado no seu livro, eram execrados pela crítica e pelo público mais intelectualizado. Como se explica essa mudança de percepção e sentimento em relação a artistas do passado tidos como bregas, no sentido pejorativo do termo?
Isso é cíclico. Tem a ver, sempre, com mudanças sociais e comportamentais que alteram a percepção geral sobre os trabalhos de determinadas pessoas. Os anos 70 foram uma época de intensos conflitos geracionais, políticos e sociais. Vivíamos sob uma ditadura, e artistas populares eram comumente vistos como defensores do sistema. É só ver o exemplo de Benito di Paula, um artista pobre, que certamente sofreu mais do que 99% do público que o vaiava, mas que era visto como um conformista. Hoje, longe da tempestade de opiniões e conflitos ideológicos dos 70, o público pode analisar o trabalho desses artistas de uma forma desapaixonada, sem influências externas. Isso muda tudo.
Por outro lado, hoje em dia, se alguém ousa criticar o funk ostentação de um MC Guimê, por exemplo, é tachado de "elitista". Se disser que achou o trabalho de algum artista africano ruim ou chato, carrega a pecha de "etnocentrista". O que pensa a respeito?
Acho triste. Um exemplo de nossa incapacidade de discutir. O Brasil virou um país infantilizado, um país do “nós contra eles”. Ou você é petista ou é tucano, ou você é contra ou é a favor de cotas, ou é isso ou aquilo. Discutir virou sinônimo de brigar, e isso é muito triste. No fundo, reflete nossa falta de educação.