Pernambuco: cerca de 215 discos lançados. Mas e a difusão?

A lista de lançamentos em Pernambuco também contabiliza coletâneas. Essa é a capa da Recife Lo-Fi Volume IV, idealizada pelo músico Zeca Viana. A arte da capa é da ilustradora/DJ francesa Albane Simon.
por AD Luna

O ano de 2014 vai chegando ao fim com marca expressiva de discos lançados em Pernambuco ou por músicos que moram no estado. Cerca de 215 títulos, entre CDs, DVDs, LPs e álbuns virtuais foram produzidos por gente do forró, frevo, pop, rock, samba, instrumental, entre outros estilos. A compilação é feita, desde 2010, pelo produtor cultural e empresário Fábio Cabral, dono da loja recifense Passa Disco. Naquele primeiro ano, foram registrados 97 lançamentos.
“Todo calor” (Isaar), “Super qualquer no meio de lugar nenhum” (Juvenil Silva), “Marrom Brasileiro ao vivo”, “Vá se acostumando” (MC Cego), “Alexandre” (Mombojó), “Nação Zumbi” (Nação Zumbi), “Na quentura do mormaço” (Maciel Melo), “Limbo” (Rua), “Negona” (Karynna Spinelli), “Movido a vapor” (Tagore), “Concerto armorial” (Sergio Ferraz) são alguns dos títulos que constam da lista. “No início do ano eu esperava que chegaríamos perto de 200. Depois fiquei receoso por causa da Copa do Mundo e das eleições. Mas veio a superação”, expõe Cabral.
De acordo com ele, a lista dos estilos líderes em lançamentos anuais não muda muito. Forró, pop-rock, frevo são os que mais se destacam. Obviamente, as maiores variações ocorrem em épocas específicas do ano. Em tempo de festas juninas, por exemplo, discos de forró assumem a dianteira.
É bom que se registre o fato de que lista não configura como retrato 100% fiel da totalidade de lançamentos registrados. “Nunca é completo. Deve haver CDs que saíram este ano e não tomei conhecimento”. Dos tempos áureos da fábrica e gravadora Rozenblit, passando pela fértil movimentação do manguebeat, a produção fonográfica pernambucana chama a atenção de quem não mora no estado, mas a acompanha por admiração e interesse profissional. Caso da escritora e jornalista paulista Patrícia Palumbo, apresentadora do Vozes do Brasil – programa veiculado em diversas emissoras do país e que já foi premiado pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte). “Esse número impressionante de discos é reflexo dessa cena mas também de uma realidade mundial que é o acesso aos meios de produção. Fazer disco é muito mais simples hoje. O difícil é manter a qualidade”, comenta Patrícia Palumbo. Para ela, a produção musical de Pernambuco é especial por conta da riqueza de linguagens sonoras. “Admiro essa ligação estreita e natural com as raízes, com o clássico, com a tradição e a ousadia que dá originalidade ao som contemporâneo de Karina Buhr, Siba, Mombojó, Otto e Caçapa, por exemplo”.
Outra que sempre recebe artistas de Pernambuco em seu programa é Roberta Martinelli, apresentadora do programa Cultura Livre, veiculado na Rádio Cultura Brasil e TV Cultura, de São Paulo. Por lá já tocaram e foram entrevistados Junio Barreto, Maquinado, Eddie, Alessandra Leão, Di Melo, Orquestra Contemporânea de Olinda, Mombojó, Lirinha, Rodrigo Caçapa, além de inúmeros artistas de outros locais. “Tenho pensado cada vez mais a música sem separar por região. Vivemos um momento riquíssimo da musica brasileira, e estamos todos unidos por uma só rede”, diz.
Para Vinícius Carvalho, produtor cultural e um dos articuladores do Coligação da Cultura – PE, o problema “clássico” é o da não veiculação maior das produções pernambucanas nas rádios locais. “Se não toca, não chega nos ouvidos das pessoas. Não vejo outra solução se não abrir os espaços de difusão de forma profissionalizada, equilibrada e democrática”, aponta. Ele defende uma maior intervenção do Estado e mais pressão social para mudar a lógica do mercado, o qual considera “engessado”, “atrasado” e “ignorante”. “Felizmente hoje existe a internet como válvula de escape, não fosse isso a música estaria presa nas garagens”, complementa Vinícius.
Ex-integrante do Cordel do Fogo Encantado e atual líder do grupo Os Sertões, Clayton Barros reclama da programação veiculada pelas rádios e TVs locais. “As concessões públicas desses veículos estão nas mãos de um monte de gente que não tem o menor interesse em expandir nossa cultura, nossa diversidade de artistas, gerando assim um público que se alimenta da mesma coisa eternamente, impossibilitando o conhecimento de outros estilos e o escoamento dessa arte, desse discos”, critica.
Mais opiniões:
“A distribuição virtual é uma saída inteligente e interessante. Liberando o disco na rede quando o artista vai fazer o show o repertório já é conhecido e as vendas acontecem nesse momento do contato do artista com o público. Há iniciativas de fomento para produção e divulgação mas para distribuição do disco físico, não conheço. Se as empresas, os editais contemplassem essa etapa, talvez desse certo, mas o que tenho visto é o próprio artista se encarregar disso. Tulipa Ruiz é um exemplo bem sucedido. Ela envia por correio, vende pelo site”.
Patrícia Palumbo, escritora, jornalista e apresentadora
“Acho que no momento em que estamos, o melhor modo de distribuição de um disco é o modo como ele está sendo feito na internet (com vídeo, uma música por vez, disponibilizar para streaming, colocar para download, pague quanto puder). Isso da parte dos músicos. Fazer shows em outros estados é o modo da música circular, e aí também acho que temos que pensar como chegar com a banda em outros estados para apresentar o show sem que ela tenha que pagar para tocar”.
Roberta Martinelli, radialista a apresentadora
“O mercado musical do artista médio e pequeno no Nordeste e no Brasil consiste muito mais no tocar do que na venda da obra, quer seja física ou virtual. O disco é a ‘isca’ da apresentação, que é o produto fundamental deste mercado atualmente. A falta de espaços (bares, pubs casas de shows) voltados para artistas com carreira produção autoral é o que mais atrapalha o desenvolvimento de uma cadeia produtiva da música”.
Patrick Torquato, DJ e coordenador de música da Prefeitura do Recife
Número de discos lançados por ano:
2010 – 97
2011- 170
2012- 180
2013 – 200
2014 – 220
Espaço cultural:
Além de loja de discos propriamente dita, a Passa Disco funciona como espaço cultural. A cada dois meses, nas tardes de sábado, ocorre a Feira do Vinil com venda, troca, audição e conversas sobre os cada vez mais apreciados LPs. O encontro reúne em torno de 20 expositores.
No local também acontecem lançamentos de discos com pocket shows. Recentemente, Fábio Cabral conseguiu incentivo do Funcultura com o objetivo de melhorar a estrutura das apresentações. “O projeto consiste em fazer 24 lançamentos de CDs ou DVDs aqui na loja. Eles bancaram som, luz, mini palco, assessoria de imprensa, mesas e cadeiras”, explica.
Mais vendidos da Passa Disco até dezembro
1- Ave Sangria (Ave Sagria)
2- Valencianas (Alceu Valença)
3- A. M.A.R.T.E  (Cláudia Beija)
4- Nação Zumbi (Nação Zumbi)
5- Cezzinha e convidados ao vivo (Cezzinha)
6- Amigo da arte (Alceu Valença)
7- Pernambuco frevando para o mundo 2 (Coletânea)
8- Latada pra vaqueirama (Josildo Sá)
9- Frevo acústico (Don Tronxo)
10 – No quentura do mormaço (Maciel Melo)

Publicado originalmente na Outros Críticos