Entrevista com Juca Ferreira, novo ministro da Cultura

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Em outubro de 2014, o então responsável pela coordenação de Cultura da campanha da presidente reeleita, Dilma Roussef, esteve no Recife. Durante cerca de 40 minutos conversei com Juca Ferreira sobre temas como o funk (carioca), embate entre “alta” cultura e “baixa” cultura, conceito de cultura, Lei Rouanet (a qual ele considera “nefasta”), cinema nacional, entre outros temas. Além de perguntas minhas, foram repassadas para o novo ministro da Cultura do segundo mandato da petista questões sugeridas por Leo Antunes, Gerardo Lopes, Eudes Ciriano, Fred Lasmar, Nicolau Sultanum e Dirceu Melo - artistas e produtores culturais que atuam em Pernambuco.

Em 2010, durante a realização da Feira Música Brasil, também na capital pernambucana, bati um breve papo com Juca sobre o evento, como repórter do canal de TV web Music News - à época, mantido pelo amigo e produtor paulista James Lima.

Seguem trechos da conversa e o vídeo.

Conceito de cultura
Meu conceito de cultura não foi inventado por mim. É o conceito mais amplo possível, que incorpora as referências da antropologia. Cultura é uma dimensão da vida coletiva, é uma qualidade do ser humano, (de) não só fazer mas de necessitar da dimensão simbólica. Tudo que ultrapassa a dimensão funcional numa sociedade tem carga cultural. Portanto, cultura não é só arte. Talvez a arte seja a sua expressão mais central, mas a cultura é um sistema complexo do mundo simbólico, que envolve crenças, costumes, valores, fazeres, tecnologia. Eu vejo da forma mais ampla possível.

Embate entre “alta” cultura e “baixa” cultura
Essa é uma questão antiga. Não é nova. O conceito de cultura tem a ver com a cosmovisão, com a situação de classe, com a compreensão política. Setores da sociedade acham que têm o monopólio da expressão cultural e há uma resistência grande em admitir que outras formas também estejam no mundo da cultura. O samba também já foi excluído e proibido; a capoeira foi proibida até Getúlio (Vargas); o lundu foi uma revolução quando se introduziu nos bailes das elites da época. Isso faz parte da disputa na sociedade, de questões de valores. Mas, na verdade, tudo é cultura.

Funk
Hoje o funk é a expressão mais popular nas favelas brasileiras, nas periferias, em todo o Brasil. Em São Paulo é dominante. O hip hop já foi mais predominante, mas por ele ser extremamente politizado restringe um pouco a adesão. O funk expressa esse momento que a sociedade brasileira vive de conquistas materiais. O funk hoje expressa essa demanda de acesso, inclusive acesso de riqueza, nas suas expressões de iconografia mais popular. Recentemente, no dia que fomos instalar o (maestro) John Neschling como diretor artístico do Theatro Municipal de São Paulo, uma jornalista do Estadão me perguntou: “teremos mais música sinfônica e menos funk?”. Disse que não e respondi: “agora teremos mais funk e mais música sinfônica”. 

Interferência do Estado no gosto musical
O Estado não deve interferir nesse tipo de escolha. Toda a vez que isso aconteceu, não funcionou muito bem. As pessoas pensavam que nós íamos vestir o paletó que a direita costura com muita tenacidade para esquerda: o da repressão, da censura, manipulação a partir do Estado, da hierarquização da cultura. A gente surpreendeu porque, talvez, as pessoas e os artistas nunca foram tão livres no Brasil quanto na nossa época.

Democratização da cultura
O mercado dá acesso, mas ele é do tamanho do seu bolso. Se você é rico, você tem acesso a tudo. Se tem algum dinheiro, tem acesso a algumas coisas. Se é pobre, só tem acesso à TV aberta e morreu aí, ou quase aí. No governo Lula, as pessoas começaram a ter acesso a outros bens culturais. É preciso que se dê a elas direito pleno. 

Lei Rouanet “é nefasta”
Estamos mudando a Lei Rouanet. Ela discrimina regiões como o Nordeste, o Norte, o Centro-Oeste, 80% do dinheiro que o Governo Federal destina vai para o Sul e Sudeste. E, dentro dessas regiões, ele vai para os mesmos grupos. Quem define para onde vai o dinheiro são os departamentos de marketing das empresas. O problema da Rouanet é que financia peça da Broadway, não tem critério. Considero nefasta a Lei Rouanet, ela prejudica a melhoria do padrão da cultura brasileira. 

Educação mais Cultura
A educação de qualidade que o povo brasileiro está demandando precisa ser culturalizada. Desde os primeiros anos de escolarização é preciso que a educação tenha uma dimensão cultural forte. Precisamos criar subjetividades e densidades complexas e pensar a educação voltada para a cidadania, para convivência generosa com os diferentes e compreendendo seu papel numa sociedade onde você não é único. A educação precisa da cultura, acho que é um erro pensar a educação apenas tecnicamente. 

Funarte
Reconheço que a Funarte não avançou o suficiente. Ficou um desequilíbrio, as políticas socioculturais avançaram mais do que a política destinada para as das artes. Nós deveríamos ter sido mais rigorosos com a Funarte e modificado o seu padrão de atuação. Precisamos transformar a Funarte numa instituição nacional porque ela se provincianizou, ela virou uma instituição do Rio de Janeiro. Ela precisa ser uma instituição que atenda à complexidade de um país com dimensões continentais. 
Cinema
Está indo bem. Foi fruto de uma política nossa. Quando nós entramos eram apenas 10 filmes por ano, fruto do desastre do governo Collor, que acabou a Embrafilme. Nós fomos trabalhando com a perspectiva de descentralizar a produção cinematográfica brasileira. O renascimento do cinema pernambucano, cearense, baiano, mineiro, do Rio Grande do Sul é fruto de uma política que nós criamos, que tive forte oposição de alguns renomados cineastas do Rio e São Paulo. Foi guerra mesmo! 

Incentivo
No caso da Globo (Filmes) e das grandes produtoras brasileiras, acho que eles têm que ter acesso a um delta X. Mas acho que a gente tem que incentivar a multiplicação dos produtores, ou seja, trabalhar muito com a produção independente. Não seria correto desestimular o grande produtor brasileiro, ele precisa ter alguma facilitação, algum estímulo por parte do governo. 

Museus da música brasileira
É uma necessidade. Não sei se um museu ou vários. Há várias propostas, desde a minha época. O Cais do Sertão (construído no Bairro do Recife) foi ideia nossa, inclusive. Não sei como evoluiu o Cais, mas o projeto é de boa qualidade. 

Mercado da música
A indústria fonográfica está em crise no mundo inteiro. É preciso multiplicar formas de gravação, de produção e divulgação; é preciso criar redes. E nisso o Estado tem um papel importante. Não é estatizar; pelo contrário, é estimular novas formas de negócio, de produção. A gente desenvolveu uma ação interessante que estava bem avançada, mas infelizmente Ana de Hollanda (ex-ministra da Cultura do governo Dilma) deu uma brecada, que foi aquela Feira da Música. A primeira e a segunda aconteceram aqui. Chegou-se a se movimentar mais de R$ 150 milhões em negócios ali.