Diversidade estética e simbólica do manguebit é desnudada em livro

Paula Lira é antropóloga, psicóloga e artista. Foto: Ana Luiza Lira/Divulgação

Por AD Luna
ad.luna@gmail.com

Nada existe por si mesmo. Todos os fenômenos - incluindo manifestações artísticas, estilos musicais, nossos corpos e até nossos pensamentos - estão integrados em uma grande e intricadíssima teia de causas, condições e efeitos. É uma relação de interdependência que, apesar de óbvia, passa despercebida por muita gente. Não é o caso da pernambucana Paula Lira, autora do livro A grande serpente – poéticas da criação no mangueBit. A obra, viabilizada pelo Funcultura e lançada em novembro de 2014, é uma competente e sensível síntese conceitual do amplo conjunto de signos que permeiam a estética do mangue. A movimentação cultural, iniciada nos anos 1990, e cujas vibrações continuam a reverberar em diversas áreas da cadeia produtiva e da memória consciente e inconsciente dos pernambucanos. Em especial, a dos moradores da Região Metropolitana do Recife, de onde efetivamente se deu a revolução dos “caranguejos com cérebro”.

Permeado por enigmáticas ilustrações (criadas, em sua grande maioria, por Isabela Stampanoni), o texto cativa pela clareza, riqueza de informações e encantamento da própria autora pelo assunto. Ela mesma foi uma das pessoas que curtiu as festas, foi aos shows e criou laços de amizade e afeto com personagens importantes da movimentação mangue, a exemplo de Renato L, h.d. Mabuse, DJ Dolores, Fred Zeroquatro, o próprio Chico Science, entre muitos outros.

Publicado originalmente no Diario de Pernambuco, em 24/11/2014.

Aliado ao “experimentar por si mesma”, a formação acadêmica de Paula Lira certamente ajudou a identificar e relacionar os diversos aspectos envolvidos na concepção do mangue; além dos seus impactos no Recife do presente. “Vivi as ideias sobre mim mesma sendo modificadas para melhor, ao mesmo tempo que via a cidade ser transformada em Manguetown. Dialogar, mergulhar e contar aspectos desta história pareceu ser o que eu devia fazer, quero que esta atitude de inventar e fazer acontecer a própria história possa ser vivida pelos jovens, penso que este livro ajuda”, expõe a antropóloga, psicóloga e artista.



Ao ir a campo para investigar a matéria-prima da sua obra, Paula diz ter seguido a “poética orientação” da professora aposentada pelo Programa de Pós em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Cida Nogueira: “o caminho se faz pelo caminhante”. Durante o percurso, algumas de suas primeiras hipóteses foram derrubadas à medida que colhia informações. Uma delas é a visão de que o “mangueBit” (como ela escolheu grafar) não era e nunca foi caracterizado pela fusão de sons nordestinos, brasileiros, com internacionais a exemplo do funk, rap, rock, metal, afrobeat, dentre outros. 

“Percebi já na primeira entrevista com DJ Dolores que estava bem longe do que afirmavam com veemência. Ou seja, seria incoerente determinar como expressão grupal a produção específica de um certo som, e mais propriamente, onde fossem praticadas necessariamente fusões de ritmos...Compreendi que a frase ‘de monocultura já basta a cana de açúcar’ expressa um real interesse pelo diverso, pelo amplo, e por uma atitude coletiva de abertura que proporciona a criação”.

Outro ponto esclarecedor é o do não identificação dos atores do mangue com o termo movimento. “Claro que depois eles aceitam o codinome porque também entendem vantagens nisso, pois também se alimentam nas expressões para o público criadas pelo punk e pelo hip hop. Ter o que dizer é determinante no se fazer entender. Por outro lado, não me é estranha a rejeição inicial de rótulos, pois limitam a criação. E com a metáfora Mangue eles acharam um ‘rótulo para abrir portas’”, explica Paula Lira.

Estimulado por algumas pessoas que também tiveram papel importante no acolhimento e difusão da movimentação mangue (como o comunicador Roger de Renor e o videomaker Nilton Pereira, responsáveis pelo Som na Rural) , o espírito que move o Ocupe Estelita tem sido comparado, em certo nível, às ações dos mangueboys e manguegirls empreendidas durante os anos 1990. Indagada sobre essa relação, Paula responde: “Olhando para o início do mangueBit e do Ocupe Estelita, encontramos uma atmosfera, quase um tempo fora do tempo, que favorece a união fraterna por uma ação comum, e esta ação é a da criação artística, esta ação transforma a cidade, esta é a ação da brodagem. Um fazer que dá vontade de fazer parte, dá vontade de agir. Não é uma ação qualquer, é uma ação amorosa, realizada com primor”.


PERGUNTA PARA PAULA LIRA. RIQUEZA CRIATIVA DO RECIFE

No livro, e no próprio espírito do mangue, fala-se muito em diversidade. Temos aqui no Recife uma grande diversidade cultural, mas parece que poucos conseguem enxergar o valor disso (percebo que muitos paulistanos, por exemplo, se ligam nisso. Daí a sempre boa receptividade que artistas daqui têm por lá). Incluindo também o próprio valor econômico, tendo em vista a realidade da economia criativa. O que pensa sobre isso?

A capacidade de ver o que ainda não existe, mas que se afirma em possibilidades é algo que os habitantes da Manguetown sabem fazer. Isto foi feito com o manbueBit. O mangueBit se construiu do invisível, na verdade, pior; nasceu do acreditado impossível, do desacreditado. Muita resiliência é necessária para se continuar em frente; no mangueBit, também uma boa dose de ousadia, teimosia, e até mesmo ingenuidade garantiu vislumbres de uma realidade inventada, mas que uma vez inventada foi se tornando real porque mais e mais pessoas enxergaram esta realidade e vinham fazer parte, fazendo tudo crescer de forma risomática.

No mangueBit e em muitos fenômenos coletivos esta força aparenta surgindo ao acaso. Porém o que muitas vezes chamamos acaso não se manifesta sem abertura e disponibilidade. É preciso se disponibilizar para este acaso, e isto é uma habilidade, pode ser desenvolvida. É potencializador um olhar criterioso ao mesmo tempo tranquilo, com certo despojamento. Este processo pode ser fomentado com intenções claras que apontam para ações precisas e na percepção dos erros como oportunidades. Tudo contando com o auxilio do outro, que com olhar vigilante tantas vezes nos salva de nós mesmos.


É parte da economia criativa praticar a escolha de possibilidades prósperas e benéficas de modo amplo. Observar que as ações são parte de uma ampla teia, têm causas e consequências, e que nem sempre o que parece ser uma vantagem para um, individualmente, realmente está trazendo um benefício duradouro. Ser egoísta é um péssimo negócio. Todos pagam o prejuízo, até aquele que pensou estar levando vantagem. Esta compreensão é experimentada no desabrochar do mangueBit. É muito precioso o tempo em que estamos nos relacionando e podemos viver o melhor de nós. Porém este tempo passa, nossos demônios se manifestam, mas como um ciclo, tempos bons também podem voltar; é bom saber reconhecer o movimento destas forças e poder atuar no momento oportuno.

A tua pergunta me faz sentir o poder da persistência. Mas uma persistência mercurial, quase malandra. Algumas vezes, mesmo tendo rompido barreiras e atravessado portais bravamente perdemos o foco e sem a devida atenção nos deixamos capturar pelo pessimismo. Muitas vezes esta é a hora de descansar e se por a contemplar a realidade e se perguntar: será que as coisas são realmente como se apresentam para mim neste momento?

Fico muito atenta ao fato de perceber que poucos enxergam o valor da diversidade cultural. Será que não precisamos esmiuçar mais esse valor? Como podemos fazer valer reconhecer seu manifestar em cada ação e seguir adiante com o próprio lugar que se estar debaixo dos pés e a mente na imensidão. A economia criativa trás uma compreensão de quem ousa.

SERVIÇO

Livro A grande serpente - Poéticas da criação no MangueBit
Preço do livro: R$ 30
Mais infos: www.passadisco.com.br, Facebook: Passa disco.
www.agrandeserpente.com.br, Facebook: A Grande Serpente - Paula Lira