Filme Tim Maia tem altos e baixos, mas diverte

O ator Babu Santana em cena do filme Tim Maia. Foto: Globo Filmes/Divulgação
por AD Luna

Uma pessoa envolvida por carcaça de rinoceronte que protegia seu coração mole e agigantado. A frase descreve com propriedade o grande talento que nos deixou no dia 15 de março de 1998. Ela pertence ao filme Tim Maia, que entrou em cartaz nacionalmente na quinta-feira (30/10). O longa de mais de duas horas retrata a história do grande soulman, da infância até sua morte. Apesar de certas deficiências e de estar longe de ser uma obra-prima, o lançamento tem bons momentos e pode valer a ida até a sala escura.

O filme é baseado no livro Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia, do jornalista, apresentador e compositor Nelson Motta. A direção é de Mauro Lima e tem no elenco os globais Alinne Moraes, linda e convincente no papel de Janaína, personagem-síntese das muitas mulheres com as quais o cantor se relacionou; e Cauã Reymond, galã, na pele de Fábio - que sintetiza músicos e amigos do "Síndico" - que não está tão brilhante, mas também não compromete.

Luis Lobianco, do elenco do canal online Porta dos Fundos, diverte ao interpretar o apresentador e espertalhão Carlos Imperial - que misturava grande faro para descobrir talentos a atos descarados de trambicagem musical. A cantora Mallu Magalhães faz uma ponta como Nara Leão, cantando bossa nova.




Tim Maia começa nos anos 1950, na Tijuca, bairro onde Sebastião Rodrigues Maia cresceu. Filho de pai branco e mãe negra, o mulato e futuro cantor e compositor distribuía marmitas para ajudar a sustentar a família. Função que o fez ser chamado de "Tião Marmita", apelido que detestava.

O jovem Tim dessa fase é muito bem interpretado por Robson Nunes. É uma época de grandes dificuldades, de problemas com a polícia (brasileira e norte-americana) e dos primeiros passos dados na carreira artística, inclusive dividindo o palco com os amigos Erasmo e Roberto Carlos. Com o auxílio de onde menos se espera, o indisciplinado, explosivo e potencial pop star vai para os Estados Unidos, país no qual aprende a falar inglês fluentemente. Ele se adapta à malandragem novaiorquina e absorve generosas doses da cultura negra local.

Na fase madura, cabe a Babu Santana dar show como Tim. A semelhança com o cantor impressiona. Por outro lado, as cenas que retratam momentos tenebrosos da vida do artista e dos problemas causados por sua própria soberba, intemperança e excessos, parecem ter sido montadas de maneira "light" para não chocar o público "global" (o filme é da Globo Filmes).

Por ser uma obra que retrata a vida de um grande músico, Tim Maia peca justamente nas situações onde tal arte deveria brilhar intensamente. As cenas de performances musicais em estúdio ou ao vivo chegam a ser constrangedoras por conta das dublagens. Com um olhar nem tão atento assim, o espectador poderá perceber a falta de sincronia entre o que se escuta e os movimentos de braços e dedos dos atores apresentados no filme.

Tim Maia se assume como obra fictícia. Para alguns, o excesso de licenças poéticas pode tirar-lhe pontos no quesito relevância artística. A duração o deixa cansativo, poderia ser um pouco mais curto. Ainda assim, dá pra se divertir e sentir saudades das aventuras de um dos grandes mestres do soul tropical e da malandragem brasileira.

E, claro, a trilha sonora é fantástica!

Originalmente publicado no Diario de Pernambuco