Falsos argumentos dominam discussões no cotidiano e na internet


Matéria originalmente publicada na editoria Brasil, do Diario de Pernambuco, em 17/08/2013

Além da TV, do rádio, jornais, revistas e na publicidade elas são reproduzidas e espalhadas em sites, blogs e podem ser encontradas aos montes em posts e discussões nas redes sociais. O problema é que muita gente - por motivos que vão do desconhecimento do assunto, desonestidade intelectual até má fé mesmo - se deixa seduzir pelas falácias

por AD Luna - ad.luna@gmail.com

"A grande maioria dos manifestantes são filhos de classe média. Ali não havia pobres que precisassem dos R$ 0,20”.
Arnaldo Jabor, cineasta e comentarista, sobre manifestantes em São Paulo

"Aí tem @jeanwyllys_real, ex-BBB e DEPUTADO, ou seja, as duas coisas mais indignas no Brasil, querendo pagar de moral (…)”.
Danilo Gentilli, apresentador, em ataque a Jean Wyllys, via Twitter

“A ‘presidente’ pede que carreguem nas tintas da Comissão da Verdade. Podia se preocupar é com a seca no Nordeste e outros problemas maiores”.
João Barone, baterista do Paralamas do Sucesso, no Twitter

“Enquanto nos zoológicos a preocupação é manter os pinguins bem quentinhos, lá fora, no mundo cão, gente como a gente está morrendo de frio nas ruas (…)”.
Raquel Shererazade, apresentadora, em comentário no Jornal do SBT

“Hoje o Estado me obriga a usar cinto de segurança; amanhã vai me obrigar a fazer ginástica e me proibir de comer gordura, o que seria bom para o corpo, mas péssimo para as instituições”.
Miguel Esteves Cardoso, escritor português

Declarações como as expostas acima são ditas e repetidas rotineiramente por artistas, celebridades, políticos, profissionais de comunicação e por milhares, milhões de cidadãos no mundo inteiro. Além da TV, do rádio, jornais, revistas e na publicidade elas são reproduzidas e espalhadas em sites, blogs e podem ser encontradas aos montes em posts e discussões nas redes sociais. O problema é que muita gente - por motivos que vão do desconhecimento do assunto, desonestidade intelectual até má fé mesmo - se deixa seduzir pelas falácias.

“As falácias constituem argumentos extremamente envolventes, populares e sedutores, porém carregados de falsidade. Em quase todo discurso falado ou escrito, encontraremos algumas das mais tradicionais falácias argumentativas”, explica o consultor da Unesco no Brasil e escritor Alexey Dodsworth Magnavita, 41.

Para Alexey, que é mestrando em Filosofia e Ética na USP (Universidade de São Paulo), o conhecimento e estudo das falácias nos tornaria capazes de identificar quando alguém tenta usá-las contra nós. No entanto, para ele, o melhor de tudo é se abster de usar falácias. “Quanto menos argumentos falaciosos, melhor é a nossa ética da comunicação. Conseguiremos conversar melhor, conviver melhor com as outras pessoas, analisar mais criticamente aquilo que lemos, seremos menos seduzidos pela falsidade”, ressalta.

FALÁCIAS EXPLICADAS EM VÍDEOS

Além das atividades profissionais desenvolvidas no setor bancário, o administrador Clarion de Laffalot, 34 anos, morador da cidade mineira de Bicas, mantém, desde 2010, um popular canal no YouTube dedicado a discutir assuntos como religião, cultura, política e comportamento. O Fantástico Mundo de Clarion (http://www.youtube.com/ClarionDeLaffalot) possui cerca de 38 mil inscritos e mais de 3,6 milhões de visualizações. Seus vídeos sobre falácias são alguns dos mais populares. Leia entrevista com Clarion.

O que te levou a produzir vídeos sobre falácias?
Foi  principalmente a frustração de ver esse tipo de argumento se repetindo várias e várias vezes em todo tipo de discussão. Eu acabava tendo que repetir a mesma explicação sobre falácias dez vezes na mesma semana, o que além de ser cansativo ainda desvirtuava a discussão. Com os vídeos prontos, bastava indicar o link do vídeo.

Na sua percepção, existe algum tipo de grupo social no qual o uso das falácias é mais frequente?
Na minha experiência, falácias são mais frequentes em ambientes onde as pessoas estão mais preocupadas em ganhar a discussão do que em aprender. Isso é muito comum em discussões onde existe muito fanatismo, como religião, política partidária e ativismo ideológico. Mas acontece praticamente em qualquer lugar onde tenham duas pessoas pessoas discutindo uma ideia.

Qual é a falácia mais comum?
Com certeza é a ad hominem, principalmente porque, para o público leigo, ela funciona. Desqualificar o argumentador é, muitas vezes, bem mais fácil que rebater o argumento. E para o grande público, traz aquela sensação de que a pessoa está "vencendo" o debate. O contrário dela, o apelo  à autoridade, também é muito frequente.

De que forma o conhecimento das falácias contribui para a melhoria da qualidade dos debates e discussões do dia a dia?
O conhecimento sobre falácias é essencial para a qualidade dos debates. O grande problema é que as falácias são argumentos impactantes, e na maioria das vezes muito convincentes. Se não estivermos conscientes dos seus artifícios e da natureza da falha lógica, acabamos sendo conduzidos a conclusões erradas.

ALEXEY DODSWORTH COMENTA QUATRO DAS FALÁCIAS MAIS COMUNS. COM VÍDEOS DE CLARION

Atacar e/ou desqualificar a pessoa e não o seu argumento (falácia ad hominem)
“Num sentido bem primitivo, seria algo como ‘só mesmo uma pessoa com um cabelo ridículo como o seu para dizer uma besteira dessas’. Tenta-se ridicularizar a aparência da pessoa, e o argumento é evitado, ou seja, na verdade não houve réplica. Há o ad hominem mais sofisticado. Alguém diz algo bastante razoável, mas atacamos a ideia só porque foi proferida por quem não gostamos. Temos dificuldade para separar as coisas”.


Falácia da falsa escolha ou falsa dicotomia
“Muitíssimo comum. Nela, dizemos que as pessoas têm que escolher entre A ou B, e damos a ilusão de que só existem estas duas alternativas. Mas a pessoa pode escolher C. Ou mesmo não escolher nem A, nem B. Exemplo: se critico o PSDB, então é porque sou petista. Se critico o PT, sou psdbista. Ora, eu posso ser de outro partido, ou mesmo de partido nenhum, ou posso ser do PT e criticar o PT. Ou falas do tipo ‘gente de bem não vota no partido X’. Este argumento é totalmente falso”.


Falácia da ladeira escorregadia
“Dizemos que uma coisa se seguirá à outra, afirmamos esta sequência, mas esta afirmação é falsa. Exemplo: quando o casamento gay foi aprovado no Brasil, muita gente comentava coisas do tipo ‘começa assim, em breve as pessoas vão poder casar com seus cachorros’. Ora, além de uma coisa (homossexualidade) não ter nada a ver com a outra (zoofilia), já que no primeiro caso nós temos indivíduos racionais capazes de consentir e no segundo caso estamos falando de animais irracionais, não existe nenhuma sustentação lógica de que o casamento entre indivíduos do mesmo sexo incorrerá no futuro casamento entre humanos e animais”.




Falsa analogia
“Comparamos coisas que parecem semelhantes num primeiro olhar, mas o olhar mais atento revela que são mais diferentes do que semelhantes. Se tomarmos a comparação com maior profundidade, veremos que a analogia é falsa. Exemplo de uma falsa analogia envolvendo Brasil e Inglaterra: recentemente, com a determinação do governo de que os médicos terão que obrigatoriamente trabalhar dois anos no SUS, algumas pessoas argumentaram que na Inglaterra o procedimento é o mesmo. É verdade. Só que as condições dos hospitais de lá são muito melhores do que as daqui”.

FALÁCIAS CONTIDAS NAS DECLARAÇÕES DO INÍCIO DESTA MATÉRIA 

Ad hominem, no exemplo de Danilo Gentilli: ele tenta desqualificar Jean Willys por ser um ex-BBB e deputado federal. O mesmo ocorreu com Arnaldo Jabor em relação aos manifestantes que saíram às ruas de São Paulo, em junho.

Falsa dicotomia, ditas por João Barone e Raquel Shererazade: no caso do baterista do Paralamas, ele parece não ter percebido que é possível para a presidente Dilma tanto se preocupar com a Comissão da Verdade quanto com a seca no Nordeste. A apresentadora do SBT vai no mesmo caminho ao não se dar conta que podem ser oferecidos bons cuidados a animais e pessoas. Uma coisa não elimina a outra.

Ladeira escorregadia: o escritor Miguel Esteves Cardoso tenta criar a ideia de que a partir de uma determinação do governo outras irão automaticamente se seguir. No entanto, além de não apresentar boas razões para que tal aconteça, ele liga duas coisas que não possuem relação: obrigação de uso do cinto com ingestão de gordura.

INDICAÇÕES DE LEITURA
Livros
Lógica informal (editora Martins Fontes, 432 páginas, R$ 73), de Douglas Walton

Pensamento crítico e argumentação sólida (Publicações Intelliwise, 312 páginas, R$ 45), de Sergio Navega. A obra está esgotada, mas a editora está preparando uma nova edição

Pensamento crítico - o poder da lógica e da argumentação. (Editora Rideel, 365 páginas, R$ 40), de Walter A. Carnielli e Richard L. Epstein

Links

Não cometerás nenhuma dessas 24 falácias lógicas
Como evitar falácias

Falácia - Verbete do Wikipedia
O cão, o garoto gay, o político corrupto - Sobre falácia da falsa escolha